Criar com as próprias mãos: a jornada de um hobbista.
- Zeca Cardoso

- há 3 dias
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HOBBY
Atividade exercida exclusivamente como forma de lazer, de distração; passatempo.
Etimologia (origem da palavra hobby): a palavra deriva do inglês hobby e tem o sentido de passatempo.
Uma atividade realizada regularmente no tempo livre de alguém para prazer.
Passatempo ou atividade de lazer prazerosa praticada no tempo livre.
Essas são algumas definições de hobby retiradas de dicionários na internet. Baseando-me apenas nessas classificações, poderia dizer, sem medo de errar, que não sou hobbista. Afinal, como um legítimo aposentado da minha atividade remunerada, meu tempo é todo livre.


Espera aí… não é bem assim. Faço muita coisa — só não ganho dinheiro — mas isso não vem ao caso. E o termo passatempo também não me agrada, pois, na minha idade, o que eu mais gostaria é que o tempo não passasse. Aliás, gostaria até que ele voltasse… mas isso também não vem ao caso.
São muitas as definições, mas o que importa é que se trata de uma atividade que nos dá prazer, alivia as tensões da vida diária, melhora nossas habilidades e nos permite criar — seja lá o que for.
Cada pessoa tem um motivo para iniciar um hobby. No meu caso, foi a necessidade de exercer uma atividade que me permitisse criar e ver minha criação materializada.
Trabalhei por décadas na área de tecnologia, mas, dependendo do ramo em que se atua, pode ser difícil ter a sensação de que algo foi realmente criado, de que seu trabalho resultou em um “produto”. Nem todos têm essa necessidade, mas, no meu caso, sempre convivi com esse tipo de frustração.
Naquela época, chamavam isso de síndrome do trabalho vazio — boreout, caracterizado pela ausência de desafios e falta de propósito. Não confundir com burnout, que é o oposto: estresse crônico por excesso de carga de trabalho.
Quando encerrei minha carreira na tecnologia, pensei: agora preciso me dedicar a algo que me traga o prazer da criação.
A marcenaria foi escolhida por esse motivo. Na verdade, eu sempre quis ser luthier, mas encontrei na marcenaria a oportunidade de me divertir e suprir essa carência.
Decidi, então, buscar um curso que me desse uma base sólida e encurtasse o caminho — afinal, eu já não era mais um garotão! Encontrei a escola Madeira Viva, do professor Celso. Na realidade, foi minha esposa a “culpada” pela indicação, e hoje brinco dizendo que ela não pode reclamar da poeira em casa.

Sim, em casa — pois minha oficina foi instalada na lavanderia do nosso apartamento!
Na prática, ela começou na lavanderia e foi se espalhando, como um “vírus do bem” (se é que isso existe), pelo quarto anexo. Tempos depois, quando fizemos uma reforma no apartamento, ganhou ainda mais espaço.
Mais uma vez, graças à minha esposa que, em um ato de pura misericórdia com o meu hobby — e para meu total espanto — disse:
“Você não acha melhor diminuirmos a cozinha e ampliar a sua oficina?”

Voltando ao tema, acredito que um dos principais fatores que tornam o hobby algo tão incrível é a possibilidade de encontrar pessoas que compartilham do mesmo interesse e, juntas, descobrem novos mundos e possibilidades.
O hobby, portanto, é algo que dá prazer, alivia tensões e pode ser praticado em grupo — podendo até ser considerado uma verdadeira “suruba”!

Calma! Se buscarmos a definição da palavra, encontraremos que, historicamente, o termo tem raízes no Tupi suru'ba, relacionado a “muitos” ou “coletivo”, remetendo a encontros e convivência.
Ou seja: madeira e muita gente — tudo a ver! Mas não vamos exagerar… não pega bem dizer para o(a) parceiro(a) que você vai encontrar os amigos para uma “suruba”.
Como disse, minha oficina fica no apartamento. Isso traz algumas vantagens: redução de custos, praticidade e facilidade para criar — afinal, basta sair do quarto e você já está no seu mundo.
Para quem gosta de observar o próprio trabalho, é excelente: a peça está sempre ali, pronta para ser analisada. Mas nem tudo são flores. Existem desafios: barulho, poeira, convivência com a família e interrupções constantes.
O segredo é encarar tudo como parte da diversão.
Para mim, os maiores desafios são o barulho e a poeira. Esses dois fatores precisam de atenção para que o hobby não se torne um tormento para os outros moradores e vizinhos.
Meu apartamento é antigo e relativamente isolado, sem paredes compartilhadas, exceto teto e piso. Tenho uma janela semiacústica, uso um aspirador confinado em caixa com isolamento e só trabalho em horários permitidos.
Como o espaço é reduzido, a organização é essencial: usou, guardou, limpou.

Nesse ponto entram armários, prateleiras, gavetas e painéis — tudo que ajude a manter a organização.
Minha oficina já passou por várias transformações, pois só no dia a dia entendemos a melhor forma de organizar as ferramentas. E construir esses móveis faz parte da diversão.

Falando em ferramentas… prepare-se: você vai comprar muita coisa. Nem sempre por necessidade, mas porque vai acreditar que aque

la plaina de bronze reluzente elevará seu trabalho a outro nível.
O risco de lotar a oficina com itens pouco usados é grande — sem falar na matéria-prima: a madeira.
A alegria de encontrar uma madeira de demolição abandonada em uma caçamba e transformá-la em algo novo me levou a “farejar” caçambas pela cidade.
Resultado: meu pequeno ateliê virou uma bagunça.
É preciso ter critério e respeitar o tamanho do seu espaço para não perder o principal objetivo do hobby: a diversão.
O ser humano, por natureza, precisa de convivência, troca de conhecimento, emoções e até frustrações.

Para elevar o hobby a outro nível, é fundamental se conectar com outras pessoas. Todos crescem: quem ensina e quem aprende.
Encontrar pessoas com a mesma paixão nos faz sentir pertencentes. O hobby aproxima, fortalece e cria laços.
Tenho outros hobbies além da marcenaria, como fotografia e música. E aqui vai algo importante sobre relações humanas.
No mundo do áudio, conheci um amigo extremamente conhecedor do assunto. Começamos conversando sobre equipamentos, fizemos projetos juntos e, rapidamente, nos tornamos grandes amigos.
Infelizmente, ele partiu — como diria Rolando Boldrin, “antes do combinado”. Desde então, meu envolvimento com o áudio diminuiu. A paixão continua, mas já não é a mesma coisa.

O grupo Marceneiros Mega me proporcionou novas amizades e evolução na marcenaria.
Hoje, quando encontro esses amigos, a conversa flui por horas — nem sempre sobre madeira. E aquela sensação de reencontrar “amigos de infância” volta.
Porque, no fundo, talvez o que realmente importe seja isso:
a convivência.
O hobby… é só o pretexto.

Zeca Cardoso
Ex trabalhador da área de tecnologia, hobbista de marcenaria dentre outros fazeres




Realista, mas ainda sim inspirador
Também sou hobbista, criando quadros de marchetaria utilizando corte a laser.